domingo, 31 de agosto de 2014

Os “Fundos” e o “Fair Play Financeiro” II

Por José Albuquerque

Agora que já conhecemos o mais importante sobre os impactos das “compras e vendas” sobre as rubricas do Balanço e ao nível dos Proveitos e Custos (reportados nos ROPA), vejamos quais são os resultados do recurso aos “Fundos” nestas operações de Gestão, por exemplo, da Nossa SAD. Para esse efeito, temos de começar por ver se todos os Fundos são do mesmo tipo ou se podem haver diferenças fundamentais, como … parece ser o caso.

De facto, há um mundo de diferença entre o BSF e aqueles que, como a Doyen, se comportam como os verdadeiros donos dos passes dos futebolistas, servindo de “muleta financeira” a clubes que selecionam como “barrigas de aluguer” para valorizar os atletas nos quais apostam.

O Benfica Stars Fundo (BSF).

Como creio que sabem, eu fui um defensor do conceito do BSF e desde antes do seu nascimento, pelo que nunca me cansarei de advogar em favor das vantagens da sua criação e, se possível, manutenção por mais tempo.
O BSF, além de ser um fundo regulado e supervisionado pelo Mercado de Capitais (sem evasão fiscal, nem dinheiros de proveniências duvidosas envolvendo “off shore”), só intervém se e quando a Nossa SAD lhe propõe negócios com Atletas com os quais já tem contrato (e mesmo estes com restrições de idade e prazo de contrato), se e depois de as duas partes chegarem a um acordo de verbas/avaliação do Atleta, pelo que ele age como “financiador” e “segurador” da Nossa SAD.

Financiador, na medida em que colocou ao dispor da SAD os seus fundos, sem juros, para adquirir partes dos passes de alguns Atletas e Segurador, na medida em que essa “partilha de interessas económicos” é concomitante com a partilha dos riscos decorrentes de eventuais desvalorizações dos passes adquiridos
Também no momento das “vendas” o BSF não tem qualquer interferência relevante (apenas obriga a SAD a que, quando um Atleta fica a menos de 18 meses do final do contrato, passe a considerá-lo “no mercado”, havendo lugar a informação sempre que surjam propostas de aquisição) e nunca foram visíveis sinais de qualquer divergência e/ou tentativa do BSF de condicionamento sobre a liberdade da SAD para conduzir a Gestão dos seus Activos.

Na realidade, a prática parece ter demonstrado que, uma vez aceite a partilha dos interesses económicos de determinado Atleta, o BSF passa a confiar absolutamente na SAD e a acompanhá-la em todas as suas decisões. E se esse comportamento é muito fácil de entender quando os Atletas são vendidos com grande proveito, como foram tantos casos, não deixa de ser de sublinhar naqueles outros casos em que as vendas se fizeram com “imparidade”/prejuízo para o BSF, como o Tacuara, o Garay ou o Roderick, já para não referir aqueles Atletas que ainda não foram vendidos nem existem perspectivas de o virem a ser e que permanecem no fundo.

Em síntese, com um enquadramento legal impoluto e sem pretensão de ingerência na Gestão dos Atletas, o BSF só pode constituir um instrumento positivo para o Glorioso. Mais ainda e mesmo sem conhecer um único dos investidores que compõem 85% do seu capital (porque a Nossa SAD investiu 6ME nos restantes 15%), eu sinto que posso afirmar que eles, mesmo visando alguma rentabilidade para o seu investimento, quiseram, acima de tudo, ajudar o Benfica.
E ajudaram, significativamente, por disponibilizarem 34ME (85% dos 40ME) sem compromisso de juros, durante 5 anos.

Outros Fundos como a Doyen, por exemplo.

Bem diferente é o caso da esmagadora maioria dos outros Fundos, como a Doyen, de que temos conhecimento, desde logo por sabermos que eles não são regulados por nada nem ninguém, porque os vemos fazer negócios com todos os clubes que aceitem receber os “seus futebolistas” e “nas suas condições”.
Sem pretender colocar em causa a respectiva legitimidade, parece-me óbvio que se trata de capitais especulativos, normalmente apoiados/participados por intermediários/agentes desportivos, que se orientam com objectivos de rentabilidade e que a pretendem maximizar “controlando” a carreira dos futebolistas nos quais entendem investir.
E, reparem, eu escolhi a Doyen como exemplo, não só por ela ter intervindo no caso Ola John (embora de uma forma que me parece ser como “apenas financiador”), como porque interpreto os seus comportamentos mais recentes, nos dossiers mãogala e vermelho, como bastante interessante: ao que foi publicado, a Doyen aceitou, no negócio entre andruptos e Man. City, receber menos do que aquilo a que teria direito, tal como se disponibilizou para fazer com a osgalhada e tudo isso para facilitar a concretização dos negócios.
É verdade que, mesmo com essas cedências, a Doyen obteve (ou vai obter) uma rentabilidade tão grande que lhe permite ser “magnânima”, mas, pelo menos, nunca poderão ser acusados de intolerância negocial.

Os Leitores do GUACHOS sabem que, sem fundamentalismos, não me agrada que a Nossa SAD desenvolva muitas relações com Fundos deste tipo, aliás tal como não gosto de ver Atletas titulares que estejam “emprestados” por outros clubes, mas confesso que não entendo a pretensa perseguição que a UEFA anuncia que lhes vai fazer.
De tudo o que li, o mais forte argumento da UEFA sintetiza-se em “queremos que o dinheiro gerado pelo futebol, fique no futebol”, o que me parece uma tremenda falácia, a menos que a UEFA venha a impedir, ou limitar, que os clubes se financiem com capitais alheios, que já implicaram pagamentos de muitas, muitíssimas centenas de milhão de euros, dinheiro esse também ele gerado pelo futebol e que não ficou no futebol.
Que a UEFA deseje ver o futebol menos ligado a alguns capitais de proveniência duvidosa, ou que queira combater a tendência hiperinflacionista dos passes que os Fundos ajudaram a agravar, isso eu poderia compreender, aceitar e, até, subscrever, mas esses argumentos não se aplicam a casos como o BSF.

O BSF e o Fair Play Financeiro FPF.

Eis-me chegado ao primeiro ponto da tese que venho defender com este(s) texto(s): até para facilitar a implementação do FPF eu acredito que fundos do tipo do BSF podem ser muito úteis, uma vez que podem constituir uma fonte competitiva de financiamento para os melhores clubes, para a Gestão de Activos dos quais podem, ainda, contribuir com um impacto “regulador” dos respectivos ROPA, absorvendo parte dos “prejuízos” como contrapartida de uma parte dos “lucros”.

Recuperando aquele nosso exemplo (na primeira parte) do Atleta adquirido por 10ME, imaginemos que o BSF aceitaria adquirir 20% do seu passe por 3ME (correspondendo a uma avaliação total de 15ME) e vejamos o impacto de uma tal operação nas Nossas “Contas”:
- começamos com um “alivio” no investimento inicial de 3ME;
- continuamos com uma redução do Custo anual em amortizações contabilísticas (que era de 2ME) para 1,4ME (7/5);
- terminando numa compensação de 6ME, se e quando se verificasse a venda deste passe por 30ME.

Típica situação em que as duas partes beneficiam de alguma coisa, não vos parece?

Notem que ao vender 20% deste passe por 30% do valor inicial investido, a Nossa SAD já estaria a “garantir” um beneficio económico de 1ME, o que tem sido a prática habitual nas operações da SAD com o BSF, mas isso não corresponde a uma contabilização imediata desse Proveito, uma vez que a SAD as contabiliza ao pró rata, ou seja, dividindo esse “proveito” de 1ME pelo tempo de duração do contrato, o que, neste exemplo, corresponderia a 200 mil E anuais (ou 50 mil por trimestre). Isto é o mesmo que dizer que os negócios da Nossa SAD com o BSF nem sequer podem servir para manipular os resultados contabilísticos!

Por tudo isto eu só vejo vantagens e recomendaria o alargamento do BSF de tal modo que as suas vantagens se pudessem “eternizar”, mesmo que, para isso, tivesse de ser garantida aos investidores uma “taxa técnica de juro”, que funcionaria como um nível mínimo de rentabilidade abaixo do qual a SAD cederia ao BSF uma parte maior dos seus rendimentos regulamentares.

Loucura?
Legalmente (im)possível?

Eu sou dos que acreditam que são as Leis que se devem adaptar aos interesses, desde que legítimos, das pessoas, sejam elas físicas ou jurídicas.

Na terceira e última parte deste texto vou apresentar a parte essencial desta minha “tese”, que vai ligar profundamente o BSF (este ou outros que possamos idealizar) e o FPF.

Aproveitem mais este intervalo para esclarecerem todas as dúvidas que possam ter. Combinados?

Viva o Benfica!

(ver também - Os “Fundos” e o “Fair Play Financeiro” I (aqui))

4 comentários:

  1. Caríssimo e grandíssimo amigo José Albuquerque,


    Mui interessante e nobre Post, com o qual concordo na sua essência primeira.

    No seu excelso início, o dilema entre o bem ( BSF ) e o mal ( Fundos « a la Doyen ) surge por demais esclarecedor..

    E nosso encantamento, pende é claro, para a bravura do altos em dignidade e fortes em elevação. Aqueles, os BSF que são nossos aliados, companheiros nas decisões e que não traem os seus irmãos de caminhada... acorrendo vastas vezes... ao lado oposto da batalha!

    Posto, isto quero louvar o santo matrimónio entre BSF e o clube, pois é união sacramentada pelo FPF.

    E o garboso do BSF, até regula a quantidade de ROPA da questão... tendo o cuidado de arcar gentilmente com o prejuízo do clube. Paciência terá de ser a sua virtude, pois só em noite de núpcias futura... poderá tirar o ansiado lucro.

    Concordo assim, que o BSF, merece ser alargado, pois sabemos que gordura é formosura e... quem beneficiará será o clube, pois com um par assim... irá dar baile no « mercado »!


    Abraço



















    ResponderEliminar
  2. Com mais este capítulo insidindo no BSF, não sei onde as ratazanas vão conseguir roubar "queijo" para virem guinchar que o mesmo não passa de um estratagema para esconder comissões e outras guinchadelas ratóides.
    Força nisso companheiro que aos poucos vão precisando de bombinhas contra a asma!

    VIVA O MAIOR!

    ResponderEliminar
  3. Totalmente de acordo. E mais, se virmos o porto, com tanto jogador comprado "a meias" com doyens e afins nao seja uma maneira de contornar o fai-play financeiro


    luis borges

    ResponderEliminar
  4. Companheiros,

    Estou piurso!
    Dois pontos desperdicados contra uma boa equipa mas ... com uma defesa miseravel: contra aquela defesa, creio que a Nossa Equipa tem, sempre, de fazer um minimo de 3 golos (e tivemos oportunidades para mais que isso).

    Infelizmente, parece-me que nao ha' condicoes para o Artur voltar a jogar na Catedral.

    Gostei muito de confirmar a evolucao do Andre' e do Talisca e o crescimento de forma do Gaitan e do Salvio.

    Temos muito trabalho pela frente e falta-Nos um goleador.

    Viva o Benfica!
    (Jose' Albuquerque)

    ResponderEliminar

Se pertenceres aos adoradores do putedo e da corrupção não vale a pena perderes tempo...faz-te à vida malandro.