sábado, 18 de julho de 2015

Passivo: como, quanto e quando diminuí-lo (III).

Por José Albuquerque

Um comentário à parte anterior deste texto, feito por um Companheiro (infelizmente anónimo), obriga-me a recordar um ponto prévio: este trabalho tem o objectivo de discutir o tema em título, depois de o considerar uma opção já tomada e apoiada por uma clara maioria dos Sócios do Clube e não colocar em causa essa estratégia, embora eu reconheça inteira legitimidade a quem a não defenda.
Esse Companheiro, por exemplo, considera que o Nosso objectivo essencial deve ser a conquista do Tri ... nta e cinco, o que é absolutamente legítimo (e eu concordo com todos os argumentos que ele apresentou), mas o meu papel é explicar porque é que, na Gestão de um Grupo Empresarial como o Nosso (um verdadeiro “porta aviões” à escala do Desporto em geral e do Futebol em particular), as opções estratégicas têm de ser absolutamente claras e, consequentemente, o mesmo se aplica à definição de objetivos e das metas a atingir em cada nova época.
Em linguagem figurada, quem navega um porta aviões não pode ligar nem à direcção dos ventos, nem à altura das ondas, porque andar ao “zigue zague” custa muitas toneladas de combustível e afasta-Nos do objetivo fundamental.

Confesso-vos que não tenho nenhum particular orgulho em ter sido o primeiro a escrever, há mais de ano e meio, logo que se confirmaram os primeiros sinais de sucesso da Nossa BTV e surgiram os primeiros rumores do extremo interesse da Gestifute em alguns dos jovens produtos da “Fábrica”, sobre a inevitabilidade de um Novo Paradigma de Gestão para o Glorioso. E não me gabo disso na exata medida em que esta realidade é absolutamente óbvia (embora eu possa discordar de alguns aspetos da sua atual concretização), só me surpreendendo como tantos comentadores e mérdi@ com boa formação e competências económicas (e, certamente, mais informação do que aquela de que eu disponho) não viram a ... evidência!
Nestes termos e tal como venho afirmando há quase dois anos (antes disso já tinha abordado o assunto, mas apenas em termos de “wishfull thinking”), o futuro a médio prazo do Grupo Benfica deve passar por uma estratégia assente em três pilares, dois dos quais são “novos” (no sentido de terem impactos significantes há apenas 2 épocas, ou dois exercícios económicos, conforme preferirem): os benefícios das provas UEFA, a Nossa BTV e o impacto, quer desportivo, quer económico, da “Fábrica”.
Com estes pressupostos e na minha humilde opinião, não tem mais justificação (não é uma imposição do Fair Play Financeiro, outrossim uma opção consciente e determinada) continuar a suportar uma “factura bancária” de mais de 20M€ anuais (que foi necessária, mas não o é mais), continuar a correr os riscos e os limites à liberdade de Gestão que decorriam de uma situação de insuficiência de Capitais Próprios, sem construir condições que preparem a Nossa SAD para uma eventual (provável?) profunda alteração dos Regulamentos de Transferências na sequência do famigerado Acordão Dahmane.
E foi assim que eu defendi (e continuo a defender, agora ainda com mais convicção) que, num horizonte de 5 anos/épocas (faltam mais 3), o objectivo fundamental da Nossa SAD passa pela reconstituição, até metade do Capital Social, dos Nossos Capitais Próprios, o que implica a obtenção de um “lucro médio anual” próximo dos 10M€.
Para ser perfeito o meu respeito pela verdade, eu até defendi a oportunidade de opção por uma de várias alternativas de “Reestruturação Financeira” (alternativas essas que não descrevi, apenas para não criar ruído, mas que sei que foram consideradas pelo CA da SAD), no sentido de dar um “impulso inicial” a esse processo e, consequentemente, reduzir (talvez para apenas 5M€ anuais) essa meta para os Nossos Resultados Líquidos, hipótese que abandonei logo que o “R&C” do exercício 2013/14 incluíu uma explicitação (que se mantém desde então) de que tinha sido abandonada essa possibilidade.

Ou seja e em síntese, ou aceitamos este Nosso objectivo fundamental (reconstituição dos Nossos Capitais Próprios, redução do Passivo oneroso e, consequentemente, da tal “factura bancária”) e, assim, vale a pena lerem este meu texto e debater o que aqui defendo, ou preferem considerar que todas as restrições económicas e financeiras se devem continuar a submeter (tal como até há 2 anos) ao objectivo da competitividade desportiva/títulos e, nessa opção, não podem voltar a “chorar pelo Passivo e/ou pelos juros”, pela simples razão que suporta o velho ditado “sol na eira e chuva no nabal ...”.

Que ninguém duvide que eu vou chorar (e muito, ahahah) com a emoção do Tri ... nta e cinco! Nem que eu acredito que o vamos conseguir e, claro, beneficiar de todos os aspectos qualitativos que essa Vitória vai ter no que ainda resta do xistrema, do POLVO, do “des porto” nacional e do “futeluso”.
Mas comparar esse resultado desportivo com os “oitavos” da Champions ... tem uma diferença de mais de 30M€!

Eu vou repetir: tem uma diferença de, pelo menos, mais de trinta milhões de euro, (e isto sem especular sobre o ranking na UEFA e as consequências quanto aos “potes” – 1, 2 ou 3,).
Mais 5M€ do que uma transição para a Euroliga e chegando à Final (com menos 3 eliminatórias, ou 6 jogos).
Pelo menos, mais 15M€ do que um desastroso 4º lugar na fase de grupos da CL (com apenas mais 1 eliminatória, ou 2 jogos).
E isto já para “não me atirar para fora de pé”, especulando sobre (ainda mais cerca de 10M€) o significado de poder apanhar um qualquer Basileia nesses “oitavos” ... se é que me entendem, ahahah.

E é por tudo isto que eu agradeço, vivamente, o comentário desse anónimo Companheiro!
Embora ele me tenha obrigado a este longo ponto de ordem (e a aumentar o número de partes do texto com este título), creio que ele bem pode ter vindo clarificar aquele que parece (???) ser o principal objectivo desportivo que o Presidente definiu ao Nosso Técnico: a conquista do Tri ... nta e cinco!

E, se assim for, eu quero afirmar o meu desacordo e, mais do que isso, quero explicar as minhas razões: estando a pouco mais de um ano de novo processo eleitoral, parece-me importante que os Sócios debatam as opções estratégicas do Clube e, com esse debate, influenciem esse processo eleitoral, seja promovendo candidaturas alternativas, seja “obrigando” o(s) eventual(is) candidato(s) a definir-se perante os Sócios.

Mas, ó Zé, tu estás a colocar em causa a construção do Plantel para esta nova época?
Não! Não estou!

E não estou não só porque não sou competente para o fazer, porque o dia 31 de agosto ainda vem longe, porque quando se muda a Equipa Técnica tem de se lhe dar tempo para tomar algumas decisões, etc., etc., etc.
Mais do que isso e até este momento em que se vai iniciar a Nossa participação na International Champions League (o verdadeiro estágio de pré época), tudo me parece estar a ser muito bem feito: (1) pela quase absoluta estabilidade do Plantel, (2) pela evidente qualidade de alguns “reforços” (incluindo os que chegam da “Fábrica”, empréstimos incluídos) e (3) pela ambição inerente à própria escolha do estágio.
E quantos mais Companheiros eu conseguir transformar em optimistas, convencer a comprar RedPass e prepararem-se para ampliar, ainda mais, o COLINHO, por melhor empregado darei este tempo que aqui dedico ao Nosso Clube.

Não está em causa o que o Presidente, ou o Técnico, ou qualquer outra voz do Glorioso possam dizer nos seus discursos e mais faltaria que não reafirmassem a Nossa ambição (e determinação) em voltar a ser Tricampeões.
O que está em causa, Companheiros, é que aqueles de Nós que temos o privilégio de algum conhecimento e capacidade de análise, assumamos o DEVER de “Benficar”, de debater, de discutir, de interpretar e, com isso, contribuirmos para a consolidação de uma estratégia clara e de um rumo bem definido para o Nosso futuro coletivo.
O GUACHOS VERMELHOS é, na minha humilde opinião, a casa onde mais e melhor se defende o Clube que Amamos!
Aqui não se papam grupos! Não se lançam boatos, não se especula, não se mente, nem se faz demagogia rasca!
Aqui todos os anti, mérdi@ e Talibans incluídos, são desmascarados!
Aqui não se atacam os Nossos pontos menos fortes, mas também ninguém os esconde, para que a humilde opinião dos Sócios que por aqui escrevem e comentam possa chegar a bom destino.

Amanhã regressaremos ao ponto em que ficámos ontem e tentarei explicar, através de alguns números (de Proveitos e Custos), porque é que a velocidade da redução do Passivo oneroso tem de ser função dos Nossos Proveitos nas competições da UEFA, razão pela qual eu lhes atribuo a principal prioridade.

Viva o Benfica!      

(AQUI) e (AQUI) podem ler a parte I e II deste - "Passivo: como, quanto e quando diminuí-lo"

9 comentários:

  1. Completamente de acordo companheiro José.
    Um abraço

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  2. Caro José Albuquerque,

    E o que se pode e deve fazer para que os oitavos da champions não sejam uma mera eventualidade mas objetivo realista e sustentadamente perseguido?

    Como encaras a questão da longevidade do plantel e da capacidade de ser potencializado, ou não, médio prazo?

    Consideras que a chegada à ultima hora de Jonas na última epoca, marcará uma tendência nesre e nos próximos "mercados" e será isso coerente com a tal perseguição sustentada aos outavod da Champions?

    E Pluribus Unum!

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    1. Enorme Superaguia1904, Companheiro,

      AHAHAHAH e com três perguntinhas apenas ... tu queres puxar-me pela língua, ahahah.

      Tu sabes que eu me confesso um perfeito ignorante em "Gestão Desportiva" e sabes que confio que a Nossa SAD tem soberbas competências nessa (e em outras) àrea, mas, obviamente, espero que um próximo "Jonas" chegue à Equipa o mais cedo possível, espero que a SAD aceite os argumentos que aqui estou a alinhar e cuide de "armar" o Plantel o melhor possível e não permita falhas na competitividade da(s) Equipa(s).

      Para a maioria, a última época correu bem (afinal, sempre conquistámos o Bi, mais um título e o troféu do início de época) e eu ... também gostei muito, mesmo!
      Do que não gostei nada foi de ver "voar" mais de 10M€ de prémios UEFA aos quais até já estava habituado, ahahah.

      Podem dizer-me que isso foi um "acidente de percurso" e eu concordo ... mas ... MAS ... não vou concordar absolutamente nada se isso se repetir nesta próxima época, tal como não concordo que esse acidente de percurso não tenha tido como consequência, imediatamente, um reforço no investimento!
      Isso mesmo, Companheiro: todo este meu texto (todas as suas partes) tem como objetivo fundamental explicar, em linguagem que se entenda, que o caminho correto é o que foi traçado (reforço dos Capitais Próprios, redução do Passivo e da "fatura bancária), mas a velocidade tem de ser escolhida DE ACORDO COM OS RESULTADOS DESPORTIVOS, especialmente aqueles (Champions) cujo impacto económico é determinante.

      Eu sei que tu já tinhas percebido, perfeitamente, tudo isto e eu reafirmei-o para os Leitores que me conhecem menos bem do que tu.

      Viva o Benfica!

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  3. Quer-me parecer que, ainda que não se possa falar de uma "reestruturação financeira" profunda ou dramática (como o sporting, por exemplo), há trabalho a ser feito no sentido de "transformar" a dívida financeira da SAD (onde está a totalidade da dívida onerosa extra-grupo).

    Isto pelas palavras do Domingos Soares de Oliveira por ocasião da entrevista que deu, creio que no Expresso (?) e pelas declarações a propósito do Empréstimo Obrigacionista. Podemos não ter que emitir VMOC ou fazer novos aumentos de capital, mas para decorrerem negociações durante "os últimos seis meses", quer-me parecer que não estejamos apenas perante uma operação de mero re-agendamento de dívida, ou estando, que de facto seja uma re-planificação profunda da mesma.... e, eventualmente, também antecipando (resolvendo?) o problema da liquidação da dívida da SGPS, agendada para breve.

    Parece-me que seria de facto benéfico reduzir a "factura" bancária. E isso pode-se conseguir de várias formas. Parece-me que a solução encontrada (e negociada com o Novo Banco) passa pela remuneração de parte desses créditos (cerca de um terço), re-agendamento do restante (+ara datas posteriores a 2020) e diversificação da dívida, leia-se, com outros instrumentos/players. Adicionalmente, acredito que se tenha assumido a "obrigação", ou melhor a intenção não contratualizada, de proceder a abatimentos consideráveis dos créditos junto dessa instituição nos próximos anos, o que só nos forçaria ainda mais a apresentar excedentes financeiros de forma continuada.

    Com este novo planeamento da dívida, ainda que não se diminua o passivo financeiro no breve prazo (como aconteceu com o sporting), julgo que se consiga "poupar" em juros, quer por força da baixa da taxa, quer pelo próprio re-agendamento,e deste modo libertar fundos e diminuir a pressão de tesouraria, com impactos positivos também no Resultado Líquido.

    Mas isso veremos no próximo RC, ou eventualmente no 1º trimestre/semestre deste exercício.


    abraço,
    Tri..Naranjos

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    1. Enorme Tri ... naranjus, Companheiro,

      Se segues o que por aqui vou escrevendo (ou mesmo antes, quando escrevia n'OBELOVOAR) sabes que eu defendi, durante anos e tal como recordei neste texto, uma Reestruturação Financeira e, por este teu excelente comentário, deu para perceber que tu não confundes essa expressão com o que aconteceu no clubeco da osgalhada.
      O que eu defendi, era, tão só, um pequeno impulso aos Capitais Próprios, por forma a aliviar a exigência ao nível dos Resultados dos próximos exercícios.

      Mas, como bem sabes, não foi essa a opção tomada por quem tem a legitimidade e a responsabilidade de decidir ... e a realidade dos últimos 7 trimestres comprova que o caminho está a ser percorrido sem recurso a uma qualquer das diferentes alternativas que eu imaginava possíveis.
      O que me trouxe a escrever estes textos é sublinhar isso mesmo e discutir "a velocidade" (a meu ver exagerada) atual do processo.

      Espero poder contar com mais comentários teus no futuro, pelo menos quando o Guachos publicar os meus textos sobre assuntos económicos. Combinados?

      Viva o Benfica!

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  4. Caro Sr. José Albuquerque,

    Mais um excelente texto, de um extraordinário Benfiquista.
    Assim vale a pena.
    Os seus textos são sempre construtivos, parabéns.

    Já renoveis o meu redpass conjuntamente com mais 3 amigos residentes na terra mais linda de Portugal Leça da Palmeira.
    Um abraço Gloriosos, João Paulo




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    1. Enorme João Paulo (RedLeça), Companheiro,

      Obrigado pelo incentivo e ... por teres escrito o mais lindo comentário do mundo: 4 Indefectíveis, vindos da linda Leça da Palmeira, só para reforçar o colinho (pode lá haver coisa mais linda ... a menos que sejam 40 Indefectíveis, vindos de qualquer outra linda terra e só com o mesmo objetivo).

      Viva o Benfica!

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  5. Totalmente de acordo c/ a Visão Estratégica apresentada.

    Naturalmente q muitos adeptos renunciarão 3 vezes às suas sábias palavras assim q a bola bata na trave e teime em não entrar... não será certamente o caso da grande maioria dos frequentadores deste Blogue.

    Anulados q estão (ou parecem estar) dois dos tentáculos + fortes do polvo - as arbitragens e o doping - assistimos tb a uma diminuição significativa da influência q os mérdia têm nos nossos adeptos, graças ao surgimento em força da Benfica TV e da Gloriososfera... a prova está no fantástico entusiasmo q despertou um simples treino do Benfica, qd éramos apresentados como fortes candidatos à descida de divisão...

    É por isso perfeitamente possível a redução do passivo mantendo intactas as ambições desportivas da Equipa Principal de Futebol - o verdadeiro motor do Clube.

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  6. Primeiro que tudo quero agradecer a sua excelente e cuidada análise e desejar a todos saudações BENFIQUISTAS.

    Caro José Albuquerque quero apenas deixar umas perguntas.
    Compreendo a visão demonstrada mas não será uma visão excessivamente empresarial descurando um pouco a visão desportiva?
    Digo isto porque não cometemos por exemplo as "loucuras" de comprar um Facao ou um Danilo pelos valores exorbitantes pedidos mas por vezes estes investimentos não farão sentido?
    Não vou gostar NADA se um Mitrovic não vier por ser demasiado caro e se for para os andrades e daqui a 2 anos for vendido por mais 10 ou 15 milhões do que custou! Da mesma forma que não vou gostar nada se um Siqueira (com provas dadas) não vier por uns 5 ou 7 e for para outras paragens e acabar por ser vendido com lucro daqui a uns anos.

    O sucesso desportivo (principalmente nas competições europeias) normalmente origina sucesso financeiro.
    Digo isto porque por vezes custa-me ver que os jogadores que desistimos para não entrar em guerras de preços (James como outro exemplo) vejo-os todos originarem sucesso desportivo e lucro financeiro numa venda.

    Fico sempre com a sensação que andamos à procura do próximo David Luiz quando vejo chegarem dezenas de miúdos normalmente desconhecidos, por valores muito baixos.

    Gostaria de ouvir a sua opinião porque isto "cheira-me" um pouco a "austeridade" e não sei se não sería melhor um certo investimento porque temos pior equipa que há 1 ano (menos um lateral e menos o grande Enzo) e que fomos 4ºs na champions (em contrapondo temos o Jonas que n foi inscrito há 1 ano).

    Penso apenas que às vezes gastar mais 15 ou 20 milhões e irmos buscá-los na champions logo na 1ª época e ainda lucrarmos com esses mesmos jogadores, pode ser mais vantajoso.

    Aguardo a sua opinião e saudações BENFIQUISTAS

    Tiago Guedes

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