Por José Albuquerque
Há semanas que estava para escrever sobre estes dois temas, ambos completamente na moda, mas numa perspectiva diferente do que já tenho lido, ou seja, centrando-me nas possíveis relações entre ambos e porque, bem ao contrário do que possam pensar, essa relação pode fazer uma imensa diferença.
Há semanas que estava para escrever sobre estes dois temas, ambos completamente na moda, mas numa perspectiva diferente do que já tenho lido, ou seja, centrando-me nas possíveis relações entre ambos e porque, bem ao contrário do que possam pensar, essa relação pode fazer uma imensa diferença.
Infelizmente, este desafio obriga-me a sujeitar os
Leitores a mais uma daquelas sessões de “economia para totós” sem me livrar de
duras criticas de Colegas, por evitar os rigores do “economês” e a extensão de
um tratado, castigos a que eu não fujo, mesmo abusando da vossa pachorra,
porque insisto em acreditar que um domínio, ainda que mínimo, destes conceitos,
acrescenta muitíssimo aos suportes da capacidade critica dos Benfiquistas
quando convidados a interpretar as decisões daqueles em quem confiámos o Nosso
voto.
Comecemos pelo principio …
Receitas vs. Proveitos e, sobretudo, Despesas vs.
Custos.
Já são inúmeras as vezes em que eu repito estes
conceitos, a ver se baixa a frequência dos erros crassos que lemos pela
internet a este propósito, quando Companheiros confundem “alhos com bugalhos”,
acabando os seus raciocínios em conclusões absurdas.
Tem uma estória que vale a pena dar como exemplo:
num blogue recente (creio que se chama “o guerreiro da luz”) o texto la’ posto
tinha uma tremenda bacorada deste tipo e eu, cheio de solidariedade
Benfiquista, deixei um comentário sugerindo a correcção, comentário que foi
publicado e, alguns minutos depois, “apagado”; entretanto, o autor do texto
alterou-o e só não digo que o corrigiu porque ele persistiu … num novo erro,
ahahah; logicamente e mesmo sabendo que voltaria a ser censurado, escrevi novo
comentário a sublinhar o novo erro e a sugerir que ele procurasse a ajuda de
alguém com os mínimos conhecimentos que o pudesse ajudar, se ele quisesse ser
ajudado.
É aquela treta dos “encaixes”, que eu detesto porque
se trata de uma palavra que sugere uma Receita, quando a venda pode ter sido
realizada com 100% de crédito ao clube comprador e, consequentemente, sem que
nem um cêntimo entre imediatamente na “caixa” do clube vendedor. Ainda assim,
não há quem não insista em falar nos tais “encaixes”.
É a eterna comparação entre as “compras” e as
“vendas” em cada janela de transferências, como se fizesse alguma lógica
relacionar umas com outras (e não faz).
E, sobretudo, é a sistemática comparação entre os
valores das “vendas”, por um lado, e a soma do “preço da compra” com os
salários pagos, para se concluir se o Atleta deu “lucro”, ou não: um colossal
disparate.
Para esclarecer estas confusões, começo por convidar
quem delas não sofre a “saltar” imediatamente para a “Conclusão”, poupando a
leitura desnecessária dos parágrafos seguintes.
Quando falamos de Receitas e Despesas, estamos a
falar numa perspectiva estrita de “tesouraria”, tal qual fazemos quando falamos
dos movimentos que vemos no extracto da nossa conta bancária. Em Gestão, a área
especifica da “tesouraria” é uma parte menor da área financeira, uma vez que se
limita a impedir roturas pontuais e excessos que corresponderiam ao desperdício
dos juros que se poderiam obter com a aplicação desses excedentes (ou da
redução dos custos financeiros a pagar por empréstimos de curto prazo
contratados).
Em negócios marcados por uma grande sazonalidade de
Receitas e/ou Despesas, é habitual a contratação de “plafonds” de crédito
automático de curto prazo (frequentemente com débito diário dos juros) que
garantem a liquidez imediata (os chamados “pagamentos no vermelho”), deixando
aos Gestores a liberdade de decisão sobre os “excessos” de liquidez e a forma
de os aplicar.
Uma vez mais eu insisto que o Nosso Grupo não tem,
nem podia, nenhuma dificuldade em financiar a sua tesouraria, como comprova o
facto de não ter registado nenhum incumprimento, seja qual for o credor, há
mais de uma década.
Quando falamos em Proveitos e Custos, saímos
definitivamente dessa óptica da “tesouraria” e entramos na área da Gestão da
Exploração e no campo dos suportes que definem, ou não, a sustentabilidade da
Empresa em causa e a manutenção da sua capacidade de investimento a prazo.
Numa linguagem simples podemos dizer que a Gestão de
Tesouraria (das receitas e despesas) é uma pequena área da intervenção de quem
gere uma Empresa, quer na importância, quer no horizonte temporal (falamos do
muito curto prazo), enquanto a verdadeira Gestão de um negócio se faz em torno
daquilo que realmente importa: os seus Proveitos e Custos, quer individualmente
(para aumento dos primeiros e controle dos segundos), quer na sua relação,
visando a maximização da rentabilidade a longo prazo (Proveitos maiores que os
Custos).
No caso de um Grupo Empresarial de raiz desportiva,
normalmente este objectivo da “maximização dos lucros a longo prazo” é
substituído por uma “maximização dos resultados desportivos, dentro de um
quadro de rentabilidade sustentável”
Vejamos alguns exemplos concretos:
Compra do “passe” de um Atleta por 10ME, com o
qual é assinado um contrato por 5 épocas desportivas.
Do ponto de vista da “tesouraria” os impactos de uma
tal operação passam, exclusivamente, pelo plano de pagamentos do preço acordado
e, ulteriormente, pelo acréscimo nos pagamentos regulares de salários e
encargos inerentes.
Ou seja, deste ponto de vista restrito não decorrem
“receitas” nenhumas e resulta uma série de “despesas” perfeitamente
calendarizadas: não houve nem “lucros”, nem “prejuízos”.
Do ponto de vista da verdadeira Gestão empresarial
(Proveitos e Custos), esta compra de um atleta não origina nem “lucro”, nem
“prejuízo” (uns e outros chamados “Resultados”, positivos ou negativos)
imediato, mas dela decorrem vários Custos perfeitamente previsíveis, a saber:
os custos salariais e … as amortizações contabilísticas do valor do “passe”
adquirido (acrescido dos eventuais custos inerentes).
Exactamente: os 10ME não são um “Custo”, nem que o
negócio fosse pago a pronto!
No caso vertente (10ME e contrato por 5 anos), o
Custo contabilístico é de 2ME/ano (10/5).
E algum “proveito”?
Esperemos que sim, mas em termos exclusivamente
desportivos.
E se fizermos essa “compra” com recurso (total ou
parcial) a um qualquer “empréstimo” (Capitais Alheios)?
Então, temos de esperar e contabilizar os inerentes
“Custos Financeiros” desse financiamento, uma realidade por Nós sobejamente
conhecida, a que temos recorrido para muitos dos Nossos investimentos (quer em
Atletas, quer no Parque Desportivo) e que resultaram na famigerada “factura
bancária” que a crise agravou para os 20ME anuais.
Já agora que chegámos até aqui, vejamos quais podem
ter sido os “movimentos contabilísticos imediatos” e o consequente impacto no
“Balanço”: se pagarmos o “passe” a pronto (1), diminui a conta bancária
(“caixa”) em 10ME e aumenta o “Incorpóreo” (Valor do Plantel) por igual valor
(tratam-se de duas “contas” do Activo, pelo que o seu valor total permanece sem
alteração), no caso em que pagaremos tudo a crédito (2), o já referido aumento
do “Incorpóreo” (conta do Activo) é “compensada” por igual aumento (10ME) de uma
“conta” do Passivo (Fornecedores) e, finalmente, (3) quando houver um pagamento
parcial imediato e outros diferidos, o aumento do “Incorpóreo” é compensado
pela diminuição da parte do valor paga imediatamente na “caixa” e no aumento
pelo remanescente de “Fornecedores” (resultando num aumento paralelo de Activo e
Passivo pelo valor que fica para pagar a prazo).
Recordem-se que, ao longo dos 5 anos contratados, o
“valor de Balanço” deste “passe”, que começa por ser de 10ME, vai diminuindo em
2ME por ano (por via da amortização contabilística), até chegar a “zero” no
final do período de contrato.
Venda do “passe” desse Atleta, um ano depois, por
30ME (líquidos de todos os custos e eventuais comissões).
Na óptica da “caixa”, haverá um calendário de receitas,
espraiadas pelo tempo (embora a Nossa SAD já tenha feito varias a p.p.) e nada
mais que isso.
Caso a SAD entenda “transformar” esse conjunto de
“facturas” em receitas imediatas, isso trata-se de uma operação de financiamento
completamente diferenciada da “venda em si”, embora a Nossa SAD tenha usado
recorrentemente do “factoring” (uma modalidade de financiamento em que as
“facturas” ficam a constituir a “garantia” de amortização do empréstimo e em que
o “risco”/juros ficam associados ao clube que “compra” o passe e que é o
responsável pelo seu pagamento), porque tem vendido muito para clubes com
reputação de “muito bons pagadores”.
Do ponto de vista da exploração (Proveitos e
Custos), é neste tipo de operações que se podem realizar as famosas “mais
valias”, que são o Proveito resultante da diferença entre o valor (liquido) da
venda e o valor de balanço do passe do Atleta no momento da venda.
Concretamente e neste exemplo, esse valor seria de 8ME (10 – a amortização
ocorrida no ano), resultando um Proveito de 22ME (30 – 8).
Na óptica da contabilidade, tudo se passa ao nível do
Activo: diminuição (menos 8ME) do tal Incorpóreo/Valor do Plantel (o passe deixa
de ser um valor do Activo) e aumento da “caixa” (pelo valor pago imediatamente)
e de “Clientes” (pelo valor das prestações futuras.
Quando, como neste exemplo, os aumentos do Activo
(30ME) são superiores ao decréscimo (8ME), resulta um aumento do valor total do
Activo, que implica (por não haver variação do Passivo) um “Lucro”.
Conclusão.
Resumindo todo este arrazoado, nem as “compras” são
custos imediatos, nem as “vendas” são encaixes e é apenas destas últimas que
resulta a maior parte dos proveitos que aparecem nos tais ROPA (Resultados de Operações
com Passes de Atletas) e que devem superar a parte importante dos custos nessa
rubrica, constituídos pelo somatório das Amortizações do conjunto de passes dos
Atletas contratados (e que andam na ordem dos 30ME anuais).
E é por isto que não faz nenhum sentido discutir se
“o Benfica tem de vender” ou se “o Benfica não tem de vender”.
O que sucede é que vamos vender, quer
queiramos/necessitemos, quer não e pela simples razão de não podermos competir
com o nível salarial que os milionários oferecem aos Nossos Atletas mais
valiosos.
E os Companheiros que defendem que a Nossa SAD não
devia ser gerida a contar com esses Proveitos (que eles designam por
“extraordinários”), esquecem quais seriam os efeitos de uma tal Gestão: com
contas, digamos, “equilibradas” sem contar com as mais valias resultantes de
vendas de passes, a SAD seria como que atirada para lucros “exagerados” sempre
que essas vendas acontecessem (e bem as sabemos imparáveis), subvertendo
completamente o objectivo essencial de maximização dos resultados desportivos.
Regressando ao subtema do FPF, importa recordar que
ele Nos obriga a uma Gestão equilibrada contando com os ROPA, exatamente
porque a UEFA tem consciência de que eles fazem parte da Gestão “corrente” da
esmagadora maioria dos clubes/SAD (de todos, excepto a dúzia que paga salários
mais elevados).
E, para
lançar a discussão, tomem nota de um comentário (de um Companheiro anónimo,
infelizmente) que me parece o ideal para podermos debater, cimentando todos
estes conceitos: “Sei que vou ser mal
interpretado. Mas se é para pagar divida e assegurar o futuro do Benfica, pois
que se venda o Sálvio o Gaitan e o Enzo que se fale verdade aos sócios que eles
de certeza vão compreender. Compre-se dois ou três bons jogadores por 10M cada
e ainda ficamos com equipa para disputar o campeonato e algo mais.”
É tempo de fazer um intervalo. Retomaremos este
texto depois de um daqueles postos (dos Enormes Guachos e Mathayus) dos quais
os Taliban tanto gostam, ahahah.
Viva o Benfica!
