Desde que o meu Pai me levava pela mão a ver o futebol, que me lembro de ouvir os adeptos - durante e após os jogos, chamar 'nomes feios' aos jogadores, técnicos e direcção do clube.
Aos 10 minutos de jogo começavam os primeiros assobios, à meia hora já se gritava palhaços e ao intervalo eram todos uns panascas. O treinador era uma besta porque não metia 'um gajo tão bom' que estava no banco (no Domingo a seguir já era outro) por troca com 'aquele nabo' que não acertava uma...
A direcção eram uma cambada de parasitas que só pensava nos copos, putas e vinho verde - era assim que se dizia então...
Ao meu Pai só o via zangado com os árbitros, um legado que me deixou até hoje e nunca o ouvi publicamente insultar alguém do clube - outro ensinamento que perdura.
Assim ou assado, no final do jogo, se o Freamunde ganhasse, já eram todos uma maravilha e se perdesse, todos não passavam de lixo.
(Os 'nomes feios' que refiro mais em cima, não passam de um eufemismo para filhos da puta, cabrões e outros mimos semelhantes...)
São assim os adeptos em todo o lado e para dizer francamente, ver um jogo de futebol esquecendo por momentos o que se passa no campo, olhando para as expressões faciais dos adeptos, ouvindo os impropérios das bancadas, é um espectáculo absolutamente hilariante, diria que...fascinante!
Passa-se do choro ao riso, do grito ao silêncio sepulcral, do insulto ao elogio, num abrir e fechar de olhos!
Impressionante o que um simples jogo provoca na mente de uma pessoa.
Impressionante como o futebol cega indivíduos extremamente inteligentes ao ponto de fazer deles perfeitos imbecis numa bancada qualquer!
Mesmo depois do jogo acabar 'ninguém' aceita a derrota, mesmo um empate, como um dos 3 possíveis resultados.
Há sempre alguém que é preciso achincalhar. Há sempre alguém que tem de ser 'queimado vivo' na fogueira das nossas frustrações - os malditos que nos tiraram o supremo prazer de vermos os nossos adversários humilhados!
O adepto fanático não aceita menos que uma vitória por humilhação.
Quando isso não acontece, e o adversário até acaba por ganhar, o fanático - muito mais feliz em humilhar o adversário do que no sentir e no festejo de ver a sua equipa ganhar, sente a derrota pior do que a humilhação que imaginava ver no adversário; sente-a como se de um ferro em brasa no corpo se tratasse!
Esta gente não tem cor, credo, religião ou partido; não é culta ou ignorante, limitada intelectualmente ou bastante inteligente, não é rica nem é pobre - é fanática, existe em todos os clubes e não se extingue no final dos jogos...
Antes, até há alguns anos, ficava confinada às discussões de tasca, de café, tertúlias, no trabalho e pouco mais.
Agora, o fanatismo militante mudou-se - com armas e bagagens, para a internet!
A blogosfera e os grupos sociais estão hoje polvilhados de fanatismo exacerbado.
Não há respeito por 'ninguém', 'ninguém' respeita valores, e atrás do teclado todos são heróis. Todos sabem de tudo e de tudo sabem mais que todos!
Os insultos (inócuos) das bancadas passaram para o PC - agora bem pensados, melhor elaborados, sem o stress do resultado, da emoção do jogo, da adrenalina da competição.
No campo percebe-se que assim aconteça. Atrás do teclado, friamente, não.
O fanatismo revela-se de muitas maneiras - sobre os mais variados assuntos, as mais variadas vertentes da sociedade, sobre instituições, pessoas...
E no fim, o que conta - o que sempre vai contar, é a bola que (não) bate no poste, o fora de jogo que (não) é assinalado, ou o golo que (não) é marcado para lá da hora.
Tudo, afinal, se resume a isso.
Está dividido o Benfica? - sincera e honestamente parece-me que não.
Quem o afirma bem que gostaria que assim acontecesse...
Uma minoria de barulhentos não faz uma maioria silenciosa. Jamais.
E o silêncio ainda é de ouro.
