Por José Albuquerque
Há uns dias, um nosso Leitor assíduo desafiou o
Guachos a abordar, aqui, o tema Bernardo Silva e eu, mesmo sem saber se o
Guachos o pensa fazer, creio que hoje é um dia particularmente adequado para o
fazer, quer pela entrevista do Presidente que a bolha acaba de publicar, quer
pela final de mais logo em que o Bernardo vai participar e que bem pode vir a
celebrar o nascimento da mais brilhante estrela sub21 do actual futebol desta
velha Europa.
Mas tenho de confessar que tenho um interesse mais
geral em regressar a este tema da formação e lançamento de jovens profissionais
de futebol, muito além do exemplo do Bernardo: trata-se de um assunto que
tratei especificamente quando o Miguel Victor partiu para continuar a sua
carreira longe do Glorioso, ou seja ... há já muito tempo.
Mas vamos primeiro ao Nosso Bernardo (sim, Nosso,
porque se trata de mais um de Nós) e começo por fazer votos de que ele possa
brilhar ao mais alto nível esta noite em Praga. Mais que isso, faço sinceros
votos de que ele possa ter uma carreira sem limites de sucessos, bem
complementados por inúmeras razões de felicidade na sua vida extraprofissional.
Creio que ele ainda não tinha 13 anos quando eu o
vi, pela primeira vez, saltar do banco para participar num jogo treino de uma
Nossa Equipa de sub14 (contra uma equipa do Casa Pia, se a memória não me
atraiçoa) e aquele garoto franzino me impressionou a pontos de eu ter
interrogado o meu Filho mais novo sobre quem ele era, como era e tudo o mais
que a minha curiosidade permitiu: até eu, que não pesco bolufas disto,
pressenti que se tratava de um pequeno frasco de perfume, de demasiado talento
(jeito e inteligência) para tão pequeno arcaboiço físico!
Nos anos subsequentes só o vi jogar umas três vezes
(duas já nos sub19), mas fui acompanhando o seu crescimento através dos meus
Filhos, que me repetiam os exemplos de “como o pequenote brilhava no meio dos
grandes”, numa estória repetida de autêntico David contra Golias, em que aquele
Nosso Atleta compensava a falta de gabarito atlético com cada vez melhor
técnica, cada vez maior inteligência e uma dedicação sem limites.
Recordo-me bem, apesar de ter conhecido a pequena
estatura física dos pais, de como esperávamos que o Bernardo “desse o pulo”,
até que, depois dele apresentar um buço farto, nos convencemos de que ele
estava condenado a lutar contra um tremendo handicap atlético.
E ainda ontem me recordava o meu Filho mais novo de
quantas vezes eu o incentivei a dizer ao Bernardo para esquecer o futebol de
onze e se dedicar ao futsal, porque eu pressentia que ele podia ser um “novo
Ricardinho”, com uma técnica ainda superior e, sobretudo, uma capacidade para
ler o jogo e decidir sempre bem que nem o Ricardinho tem.
Pois, pois ... eu sou daqueles que têm a tendência
para simplificar as coisas (é a Lei dos 20 – 80, que todos os Gestores seguem)
e nunca apostaria em futebolistas com menos de um metro e oitenta ... e cinco
se forem defesas laterais ... e noventa se forem centrais ou guarda redes. E
isto é mesmo um limite inferior, porque o que eu queria mesmo eram muitos
Matic, Jardel, ou Pogba, ahahah.
Mais uma forma de comprovar o pouco que eu percebo
de futebol, quando escrevo estas barbaridades e, se me perguntarem sobre os
dois mais fabulosos futebolistas dos últimos 25 anos, lá terei de responder ...
Maradona e Messi, dois “cambutas” cuja magia faz explodir todas as mais
voluntariosas preferências atléticas do jogo.
Honra e Glória, pois, ao Nosso Bernardo Silva que
soube carregar esse handicap, rir-se dele (e de mim, ahahah), lutar com ele e
ultrapassá-lo definitivamente, comprovando que essa regra do suporte atlético
tem de aceitar excepções.
Cada um destes quatro desafios do Europeu de sub21
foi, na minha humilde opinião, a prova absoluta de que ele, Bernardo Silva, já
ultrapassou qualquer “regra” e vai a caminho do aerópago reservado aos
predestinados, àqueles de quem se diz “who cares what the size of the dog in
the fight, when what does matter is the size of the fight in the dog”.
Tanto quanto são permitidas certezas, hoje eu tenho
a certeza de que o Benfica “perdeu” um Atleta ímpar, perdeu a oportunidade de o
ver afirmar-se perante o mundo com o Manto Sagrado vestido, perdeu a
possibilidade de ter ganho o dobro, ou mesmo o triplo, com a sua venda e, acima
de tudo, tenho a certeza de que ele, o Bernardo Silva, não tinha de “nascer
mais dez vezes”!
Pior que isso, repugna-me a hipótese de que alguém
que sabe muito de futebol tenha, nem sequer, imaginado que o Bernardo poderia
ser melhor aproveitado como defesa lateral esquerdo!
Eu já tinha ouvido essa parvoice, mas confesso que
não tinha acreditado: é inconcebível e nem me vou dar ao trabalho de explicar
porquê. Uma tal bacorada pode não ter sido motivo para despedimento com justa
causa, mas cheira-me exageradamente a uma qualquer espécie de castigo, de tão
inconcebível que é.
Mas os Leitores do GUACHOS já me conhecem e sabem
que eu não sou de fugir a responsabilidades, nem de desdizer o que escrevi,
pelo menos sem pedir desculpas pelo erro.
Quando, há um ano, escrevi que um empréstimo de um
ano para o Mónaco, mesmo com uma opção de venda por 15M€ (limpinhos de
comissões ao agente, que recebeu os 750k€ restantes), era uma excelente solução
para o “caso Bernardo”, eu sabia que era uma boa decisão, mesmo que ele
viesse a provar valer o dobro, e mantenho a opinião!
Eu tenho quase 40 anos de Gestão de Empresas e de
Equipas de Colaboradores, pelo que seria imperdoàvel se eu ainda imaginasse ser
possível ter as qualidades dos Colaboradores sem os seus defeitos, recolher as
coisas que eles fizeram bem e eliminar as que eu teria feito melhor, sob pena
de ter de trabalhar só.
Quando se trabalha em equipa, os teus Colaboradores
são como as rosas e boa parte do teu trabalho como líder é, precisamente,
tentar limar-lhes os espinhos, dar-lhes a conhecer os seus pontos menos fortes
e treiná-los a evitarem as situações em que essas fraquezas podem gerar maus
resultados. Mas não podes “arrancar” os espinhos sem “matar” as rosas!
Ao longo de 6 anos, eu escrevi muitas vezes que
considerava a ligação entre o Glorioso e o Nosso antigo técnico uma combinação
perfeita ... e não me arrependo de o ter feito.
Ao longo de todos esses anos eu também repeti que
considerava que essa “perfeição” dependia da capacidade desse excelente
profissional em manter-se motivado e solidário com o Clube e os Nossos
objectivos, algo que creio que sucedeu até há alguns meses e que acredito que
deixou de ser verdade logo que conquistámos o Bicampeonato.
Paralelamente, desde há dois anos (desde o início da
“nova” BTV), ainda o Bernardo estava no seu primeiro ano de Júnior, que eu
defendo que o futebol do Glorioso entrou numa nova fase do seu desenvolvimento,
passando a ter dois novos pilares de sustentação (a BTV e a “Fábrica”), que se
vieram juntar ao já existente “sucesso desportivo” (medido em títulos e
proveitos da UEFA).
Eu considero que o Nosso antigo técnico errou no que
diz respeito ao Bernardo Silva, tanto como não errou relativamente aos dois
André, nem ao Cavaleiro, nem ao Cancelo: o André Gomes comprovou o seu talento
e potencial, mas já estava vendido em condições que eu considero válidas; o
André Almeida é um soberbo Atleta, um típico número “12” de eleição; o Cancelo
e o Cavaleiro continuam a não demonstrar a qualidade necessária para a Nossa
Equipa, pelo que a sua venda em condições económicas atractivas é uma
oportunidade imperdível.
Quanto ao Bernardo, creio que é indiscutível que,
estando no Plantel, poderia ter assumido um papel muito importante na segunda
metade da época finda, desde que não fosse a substituir um qualquer defesa.
Agora, não adianta chorar sobre o leite derramado:
eu prefiro que o Benfica tenha aprendido com o (único) erro!
Agora, resta-Nos apoiar o Bernardo Silva como
fazemos com qualquer um dos Nossos Atletas, nem que seja chorando com ele, se
ele tiver de viver o infortúnio de Nos marcar algum golo: eu já o fiz uma vez,
com o Maestro!
E fazer-lhe sentir que nunca vai estar só ...
Obrigado, Bernardo!
Viva o Benfica!