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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Ricardo Araújo Pereira

Retirei esta entrevista a Ricardo Araújo Pereira do sitio (mal frequentado) i online, um local que não recomendo a ninguem, mas como se trata do grande  Ricardo que o GuachosVermelhos admira sem reservas, merece ser divulgada...
Não é ainda o regresso às suas inteligentes crónicas, mas dá para matar a saudade...




Entrevista a Ricardo Araújo Pereira

"Acredito no Benfica campeão mesmo quando é matematicamente impossível"

Deve ter sido uma das prendas mais repetidas junto dos benfiquistas que sabem ler. E até dos (alguns familiares do jornalista certamente) que não sabem. "A Chama Imensa", livro que reúne as crónicas de Ricardo Araújo Pereira sobre o Benfica no jornal "A Bola", é um retrato do amor (às vezes ódio) de um homem pelo seu clube. O Gato Fedorento, sócio número 17.411, fala-nos das origens do seu benfiquismo e de uma fé no seu clube de tal maneira inabalável que resiste à lógica, bom senso e matemática


Esta não é daquelas entrevistas que começam com uma descrição do local onde decorreu a conversa. Não está ilustrada por um tique recorrente do entrevistado nem consta aqui qualquer referência à posição do sol aquando do encontro - até a frase "era de noite e, no entanto, chovia", faz ainda menos sentido. Ricardo Araújo Pereira, sócio número 17.411 do Sport Lisboa e Benfica, está em casa, ao computador, na véspera da véspera de Natal, a responder a perguntas enviadas dias antes por e-mail. Enquanto escreve - "não faço ideia de quanto tempo vou demorar porque tenho as miúdas, malditas férias escolares" - a compilação de crónicas "A Chama Imensa" torna-se num dos livros mais vendidos deste Natal.


É possível que a águia Vitória não volte a voar no Estádio da Luz. Vai fazer muita falta?

Sim, fará falta. E é pena. O Benfica era o único clube que conseguia organizar um espectáculo daqueles com o seu símbolo. Os leões não voam tão bem e os dragões padecem do mesmo mal que a maior parte dos penalties que se vão assinalando a favor do Porto: não existem. Ainda assim, S. Jorge matou um. Veja como deve tratar-se de um bicho irritante, para conseguir fazer com que um homem que era santo perdesse a paciência.

Qual é a sua memória mais antiga do estádio da Luz?

Talvez um Benfica-Porto de 1981. Cheguei ao terceiro anel antigo logo a seguir ao almoço, porque os jogos eram à tarde e não havia esta mariquice dos lugares marcados, como na ópera. A certa altura, Pietra deu uma soberba sarrafada ao Frasco, que ficou a contorcer-se no chão. Um consócio que estava ao meu lado gritou, com muita humanidade: "Se ele está a sofrer, o melhor é abatê-lo!" Ganhámos 1-0, golo de João Alves. Resultado magro mas, tendo em conta que o árbitro era António Garrido, foi goleada. Nesse ano, fomos campeões e ganhámos a taça, também ao Porto, 3-1 na final. Três golos de Nené. Veloso marcou um na própria baliza logo a abrir, para lhes dar um de avanço, a ver se o jogo ficava mais equilibrado. Não resultou.  (O GuachosVermelhos gaba-se de ter assistido a esse jogo no relvado, bem pertinho dos craques de então...hehehehehe!)

Por que razão escolheu o Benfica?

Quando eu era pequeno, o meu primo António convenceu-me de que o Benfica era o melhor clube do mundo. Sem querer tirar mérito ao meu primo António, não é difícil convencer uma pessoa disso, uma vez que é verdade. Quanto ao meu primo António, é do Benfica por causa de um barbeiro que lhe cortava o cabelo no Areeiro. Portanto, em última análise, sou do Benfica por causa do barbeiro do meu primo António. Até agora, foi o máximo que consegui apurar acerca da minha genealogia benfiquista.


No seu livro fala do Shéu e do Rui Costa, de querer ser como eles. Há algum jogador da actual equipa que lhe mereça essa empatia e admiração?

Em princípio, invejo o destino de todos os rapazes que vestem aquela camisola. Hoje, gosto especialmente do Maxi [Pereira] e do Fábio [Coentrão], uma vez que só não mordem nos adversários porque as regras não permitem; do Ruben Amorim, porque é do Benfica desde os três meses - e isso nota-se no seu futebol; do Luisão e do David Luiz, porque são a melhor dupla de centrais desde Mozer e Ricardo Gomes; do Aimar, porque descobre jogadores isolados para surpresa de toda a gente - incluindo dos próprios, que se apanham sozinhos sem saber como à frente da baliza; do Carlos Martins, porque é um digno sucessor de Carlos Manuel, a locomotiva do Barreiro; e do Roberto, porque é do tamanho de um guarda-fatos que a minha avó tinha e cada vez defende melhor. E, enfim, dos outros todos.

Costuma ver os juvenis na Benfica TV e o futsal de veteranos?

Claro. Estou de olho num puto que parece o Valderrama (acho que lhe chamam mesmo Valderrama) e gosta de fintar várias vezes o mesmo adversário antes de avançar para a baliza. No futsal de veteranos, acompanho com especial interesse a carreira de um avançado que talvez tenha dois ou três quilos a mais. Isto para falar apenas nas modalidades que citou. Mas se um velhote vestir a camisola do Benfica e começar a jogar chinquilho, sou menino para ir apoiar.

A enumeração dos maiores flops do clube é uma ocupação frequente entre benfiquistas que se querem rir deles próprios. Qual é para si a mais fracassada de todas as contratações do glorioso?

Se calhar, é mais fácil fornecer-lhe o meu onze ideal de cepos: na baliza, Bossio. Moretto, Zach Thornton e Butt esperam oportunidade no banco. Lateral direito: Dudic, embora Ricardo Rojas e Gary Charles tenham valor para ocupar o lugar. Centrais: Jorge Soares e Paulão, o coice de mula. Jorge Bermúdez, Machairidis, Simanic e outros 10 ou 20 que não me ocorrem agora também eram exasperantes. No lado esquerdo da defesa, o meu coração balança entre Steve Harkness, Alessandro Escalona e Emmanuel Pesaresi. Mas se me der 5 minutos, talvez encontre pior. Trinco: Michael Thomas, com Marco Freitas, Jamir e Paulo Almeida no banco. Daqui para a frente, seria preciso escolher 5 entre Taument, Glenn Helder, Leónidas, Manduca, Luís Carlos, Luís Gustavo, Clóvis, Uribe, Hassan, Marcelo e Pringle. Uma tarefa difícil.

O que sente ao ver isto:  Video promocional da Operação Coração ?

Sinto alívio por já não estarmos nessa situação e incredulidade por ter sido possível convencer as pessoas a fazer essas doações. Depois lembro-me do título da Operação Coração que tenho emoldurado na minha secretária e percebo tudo um bocadinho melhor.

E isto; Golo e as lágrimas de Rui Costa depois de marcar ao Benfica enquanto jogador da Fiorentina ?


Eu estava no estádio nesse dia e na bancada também estávamos todos a chorar. Que quer que lhe diga?, os benfiquistas são pessoas sensíveis. Hoje, este episódio continua a emocionar-me, apesar de se ter tornado comum: quando o Inter marcou ao Sporting, Luís Figo também chorou. Chorou a rir, mas chorou.

Não estão em "A Chama Imensa" as crónicas todas. Como fez a selecção?

Excluí as que tinham ainda menos interesse do que as que ficaram. Só fiz ponto de honra em manter todas as que falavam de Rui Moreira. Um homem que é proprietário de um cão que ressuscita merece a distinção. Haja respeito pela Páscoa canina.

Como é ser um dos "dois rafeiros atiçados às canelas" de Miguel Sousa Tavares?

É surpreendente, porque sempre apontei para o lombo. Miguel Sousa Tavares tem uma relação um pouco conflituosa com os factos e uma grande capacidade para ignorar evidências, como certos documentos que temos vindo a ver, ler e ouvir. Ora, como disse a avó de um adepto do Benfica chamada Sophia de Mello Breyner, "vemos, ouvimos e lemos / não podemos ignorar". Palavras sábias.

Durante o período em que foi cronista de "A Bola", qual foi o melhor alvo?


Deve ter sido o Pinto da Costa. É quase inevitável, uma vez que se mantém no cargo há décadas e é um homem multifacetado, que ora declama poesia como João Villaret, ora dá indicações de trânsito como um GPS. O facto de estar a cumprir pena de suspensão por tentativa de corrupção activa enquanto se queixa das arbitragens também é divertido.

Qual é para si a equipa mais fácil de caricaturar do nosso campeonato?

É possível que seja o Sporting. Sempre que o Benfica está no fundo, o Sporting tem a gentileza de aparecer para demonstrar que é possível descer um pouco mais. Um dia depois de termos levado 5 do Porto, o Sporting jogou contra o Guimarães. Estava a ganhar 2-0. Nisto, o Vitória reduz. Depois, empata. A seguir, marca o golo da vitória. Até me passou um bocadinho da azia.

Acha que ainda vamos lá este ano?

Claro. Mas eu sou suspeito, uma vez que continuo a acreditar mesmo quando já é matematicamente impossível.

sábado, 16 de outubro de 2010

CRÓNICAS "RAP" Batotas que temos como evidentes



“A Constituição americana – até hoje considerada como um dos melhores textos jurídicos jamais escritos - enumera o que os Founding Fathers chamaram de «verdades que temos como evidentes». “Miguel Sousa Tavares, A Bola, 12 de outubro de 2010

Aparentemente, há juristas que lêem a Constituição americana sem o cuidado que é devido a um dos melhores textos jurídicos jamais escritos. Na verdade, não é a Constituição americana que enumera aquilo a que os Founding Fathers chamaram verdades que temos como evidentes. Essas são enumeradas na Declaração de Independência, que foi escrita uma boa década antes da Constituição. É, então, na Declaração de Independência que os chamados países fundadores dos Estados Unidos expõem as verdades que consideram evidentes: que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, e que entre esses direitos se contam o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Uma das verdades que não é evidente, quer para a Constituição, quer para a Declaração de Independência, é que os cidadãos tenham o direito inalienável de não serem escutados. Como é evidente, todos os cidadãos têm o direito à privacidade - mas esse direito não é absoluto. E a magnífica lei americana permite o uso das escutas como meio de investigação, assim como a lei portuguesa. Que horror! Mas não era a PIDE que também escutava? Era. Se bem me lembro, a PIDE também prendia e, apesar disso, no regime democrático há quem continue a ir preso. A diferença é simples, mas parece que é difícil de entender: a PIDE escutava e prendia arbitrária e ilegitimamente, como é próprio das polícias políticas das ditaduras; a polícia das democracias escuta e prende justificada e legitimamente, como é próprio do Estado de direito democrático. O mais intrigante, no caso das escutas do Apito Dourado, é o facto de haver discussão quando, afinal, estamos todos de acordo. Por exemplo, estou de acordo com Miguel Sousa Tavares quando, depois de José Sócrates lhe ter dito que não devíamos conhecer o conteúdo das escutas do processo Face Oculta, respondeu: “Mas conhecemos. Eu também acho que não devíamos conhecer, mas conhecemos. E, uma vez que as conhecemos, não podemos fingir que não conhecemos. Eu, pelo menos, não posso”. (http://www.youtube.com/watch?v=RlWI8t7JY6Y&t=08m07s).

E estou de acordo com Rui Moreira, quando ontem confessou aqui a razão pela qual comentou as escutas que envolviam o nome de José Sócrates: «(...) limitei-me a não ignorar o que era público, ainda que resultasse de uma ilegalidade. Ninguém se pode alhear do que é público e das suas consequências». A única diferença é que eu tenho essa opinião relativamente a todas as escutas, e não em relação a todas menos as do Apito Dourado. Também acho que não devíamos conhecer a escuta em que Pinto da Costa combina com António Araújo oferecer fruta para dormir ao JP, mas conhecemos. E, uma vez que a conhecemos, não podemos fingir que não conhecemos.

Eu, pelo menos, não posso. Quando comento a escuta em que Pinto da Costa dá indicações a um árbitro para que vá a sua casa nas vésperas de um jogo, limito-me a não ignorar o que é público, ainda que resulte de urna ilegalidade. Até porque ninguém se pode alhear do que é público e das suas consequências. Além disso, note-se, até concordo com MST quando diz que as escutas vieram a público nesta altura por causa do Porto-Benfica. O objectivo é prejudicar o Benfica: os jogadores que tiverem conhecimento das escutas ficam a saber que, por mais que se esforcem, se o árbitro estiver trabalhado não têm hipóteses de ganhar. Desmoraliza qualquer um.

Rui Moreira desfez-se em explicações para justificar que comentar umas escutas é um acto legítimo e comentar outras é uma vileza sem nome. Agora que foi despedido, talvez Rui Moreira tenha mais tempo livre para entrar num negócio que gostaria de lhe propor: formarmos um circo. Como ele já aqui tem sugerido várias vezes, eu seria, evidentemente, o palhaço. Ele seria o contorcionista. Não são muitos os artistas que se podem gabar de ter um número tão bom como o dele. A única maneira de Rui Moreira e MST comentarem uma escuta de Pinto da Costa é o presidente do Porto ser apanhado numa conversa telefónica com José Sócrates. Mesmo assim, suponho que fizessem um comentário misto, debruçando-se apenas sobre intervenções de Sócrates: “Esta intervenção de Sócrates reforça a nossa desconfiança nele. Agora temos uma parte do telefonema que não devíamos conhecer e temos nojo de quem a comenta. Agora está Sócrates novamente a fragilizar a sua credibilidade. E agora temos mais uma parte da conversa que é indigno estarmos a ouvir”.

Umas coisas são picardias maliciosas, típicas do mundo do futebol; outra, bem diferente, são ofensas. E Villas Boas ofendeu-me gravemente numa conferência de imprensa que deu esta semana. Disse que as minhas crónicas eram as únicas que gostava de ler porque eu o fazia rir. Sinceramente, creio que não merecia o insulto. Todas as semanas faço aqui o melhor que posso para provocar Villas Boas. Já recorri a tudo: sarcasmo, ironia, escárnio, simples sacanice. E Villas Boas tem a repugnante nobreza de carácter, o asqueroso desportivismo de achar graça. Para ele, se bem percebo, isto do futebol é a coisa mais importante do mundo para todos, mas no fim acaba por ser um jogo de que nos podemos rir juntos, seja qual for o nosso clube. Simplesmente infame. Exijo que passe a ter o fair-play de um Rui Moreira, que gosta muito de piadas desde que não sejam sobre ele. Obrigado.

Ricardo Araújo Pereira, Jornal A Bola

E PLURIBUS UNUM

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

CRÓNICAS "RAP" António Araújo e judeus do século XVII: vítimas diferentes, a mesma ignomínia



“Obviamente, o João pode ser o João não podia ter sido nomeado para este jogo"

RUI MOREIRA

A Bola, 13 de Agosto de 2010

Embora quase ninguém tenha dado por isso, há cerca de dois meses foi cometido um crime nestas mesmas páginas. Não é segredo para ninguém que a divulgação do conteúdo das escutas é proibida. Ora, quando usou a expressão o João pode ser o João, Rui Moreira estava, como se sabe, a citar propositadamente uma escuta em que intervém o presidente do Benfica, publicitando o seu conteúdo. Trata-se de um comportamento completamente inaceitável e extremamente pidesco. E vice-versa. Pela minha parte, devo dizer que não participo em autos de fé, e não poso continuar a colaborar passivamente num jornal que se transforma num auto de fé. Não tenho, por isso, outra alternativa senão abandonar esta crónica durante dois parágrafos.

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Creio que a minha posição ficou clara, e espero que esta atitude simbólica contribua para moralizar o debate futebolístico e o próprio mundo em geral. Lamento ter chegado a este ponto, mas o caso é mais grave do que parece: Rui Moreira é reincidente neste tipo de conduta vergonhosa. No dia 26 de Fevereiro de 2010, o jornal i colocou a várias personalidades a seguinte pergunta: Depois dos episódios recentes relacionados com as escutas e o caso Face Oculta, mantém a confiança no primeiro-ministro? A resposta de Rui Moreira foi: «O primeiro-ministro tem que ser um factor de confiança perante o exterior e agora acho que passou a ser um factor de desconfiança perante o exterior». Sei que o leitor está tão chocado como eu. Rui Moreira não faz qualquer comparação entre a Santa Inquisição e as escutas (que todos os historiadores acham parecidíssimas), não condena os bandidos que as publicaram, nem se demarca da porcaria, da canalhice e da insídia. Não só conhece as escutas como as comenta, tendo mesmo o descaramento de tirar conclusões com base no seu conteúdo. Repugnante. Quando é que esta gente compreende que, nisto da escutas, tudo é indigno (menos o que lá é dito)?

Entretanto, parece que houve problemas no Trio d’Ataque, da RTPN. Não costumo assistir mas, ao que me disseram, um dos representantes do Porto no programa abandonou o estúdio – o que acabou por beneficiar o clube. Segundo ouvi dizer, a cadeira vazia revê, no resto do debate, uma postura mais sensata e digna do que o seu ocupante habitual costuma ter. Até nisto têm sorte, os portistas. Evidentemente satisfeitos com a nova representação, os responsáveis da SAD do Porto emitiram um comunicado no qual afirmam que o clube «não apoiará qualquer sócio ou adepto que venha a ser enquadrado como representante do clube, nem lhe prestará qualquer tipo de informação, pelo que todas as suas posições serão sempre pessoais». Na tentativa de manter a excelente cadeira como representante, o Porto decreta um blackout preventivo a um possível futuro comentador. Percebo a intenção, mas gostava que a RTPN arranjasse um substituto. Sem desprimor para os porta-vozes oficiais, seria refrescante ver um comentador do Porto cujas posições fossem, desta vez, sempre pessoais.

Os adeptos de futebol assistiram, na semana que passou, a um fenómeno meteorológico interessante. Todos conhecíamos o fogo-de-santelmo, uma luz provocada por descargas eléctricas na atmosfera, observada frequentemente pelos marinheiros. Parece mesmo fogo, mas não é. «Vi claramente visto o lume vivo», diz Camões n’Os Lusíadas. Esta semana, Portugal conheceu o penalty de Santelmo. Vi claramente visto o penalty nítido, teria dito o poeta, se tivesse escrito a epopeia do futebol português (e em hendecassílabos). De facto na segunda-feira, o penalty era claríssimo. «São muitos dos meus jogadores a dizerem que é demasiado claro», declarou Villas Boas. Apelou a que toda a gente metesse pressão na TVI para mostrar as imagens que, por capricho ou conspiração, se recusava a transmitir. «77:53!», bradava o director de comunicação, sem que se percebesse ao certo se estava a indicar um minuto do jogo ou um versículo da Bíblia que anunciava que o fim estava próximo para todos os que não vissem o penalty.

As imagens, por manifesta má vontade, é que teimavam em não mostrar nada. Passou um dia. Deve ter havido reuniões. Que fazer? Atacar a credibilidade das imagens? Se as escutas não podem ser aceites como meio de prova, era o que faltava que as imagens pudessem sê-lo. Não, está muto visto. Não havia alternativa: era mesmo preciso fazer um mea culpa. Afinal, 24 horas depois, as buscas terminaram e o penalty não apareceu. O que era claríssimo passou a inexistente. Pois bem, devo dizer que não concordo. Na minha opinião, André Villas Boas tinha razão na segunda-feira à noite. O lance que ocorre aos 77 minutos e 53 segundos do Guimarães – Porto é mesmo penalty. Trata-se de uma jogada em que nenhum jogador adversário comete qualquer infracção às leis do jogo. Normalmente, é o que basta para ser penalty a favor do Porto. Há jurisprudência neste sentido. As regras do futebol são uma coisa, a tradição é outra. Um jogo em que o árbitro se limita a perdoar um penalty ao Porto e a protelar a expulsão do Fucile durante vários minutos continua a ser um escândalo, e não há imagens que me convençam do contrário.

No final do jogo, nem todas as declarações foram absurdas. «Vou ficar atento para saber se este árbitro vai de férias», avisou Pinto da Costa. Ora até que enfim. Não foi precisamente por falta de atenção às férias dos árbitros que certas facturas da Cosmos que foram pagas por engano? Pode ser que alguma coisa esteja a mudar.

E PLURIBUS UNUM