Pacheco seguiu as pegadas de Sousa, um ingrato a quem o Benfica dera tudo, trocando o maior clube português pelos sapos, ao rasgar uniteralmente o contrato, num episódio reles, com Sousa Cintra a vestir a pele de chefe do gangue que tentou tomar de assalto o Benfica. Eu, que os admirava enquanto futebolistas, nunca mais pude olhar para a cara deles. Hoje, passados trinta anos, Pacheco recuperou uma parte do respeito perdido desde então. Não são muitos, eu não me lembro de nenhum, os antigos futebolistas, benfiquistas ou não, que falem de forma tão desassombrada dos esquemas do crime organizado. Pacheco, goste-se ou não, prestou hoje um grande serviço ao Benfica e ao futebol. Numa entrevista ao jornal Abola - de quando em vez o pasquim do João Mauzinho parece ganhar alguma vergonha na cara - Pacheco põe a nu o que, aqui, neste espaço, denuncio e que a MDCSDQT tenta a todo o transe esconder. Sem esquecer que Rui Costa, com uma proposta mirabolante nas mãos, lhes deu tampa e que João Vieira Pinto, que também foi assediado, já a caminho do alvalixo foi resgatado à ultima hora por Jorge de Brito, por uma pipa de massa, deixo parte da entrevista que fala por si própria...
Esse afastamento da Liga dos Campeões surgiu no momento da quebra da equipa?
- Acho que a quebra com o FC Porto… ou melhor os jogos com o FC Porto têm de ser trabalhados de uma forma específica. Tem de se perceber bem o enquadramento em que se vive e adaptarmo-nos àquele jogo específico. Não tem nada a ver com os outros. O FC Porto faz isso bem e o Benfica não. O FC Porto tira partido de uma agressividade que não tem o mesmo critério em relação ao Benfica. Se nós formos analisar os jogos vemos isso com relativa facilidade. Se calhar, em média, um jogador do FC Porto para levar um amarelo a equipa pode fazer 8, 9 ou 10 faltas. O Benfica à segunda falta tem um amarelo e aqui e ali são condicionados por aquilo que o FC Porto tem de excelente, que é trabalhar os jogos na sua antevisão. E, quando chega ao momento do jogo, vão os árbitros, os jogadores, os adeptos e a comunicação social condicionados. Apesar de não concordar tenho de respeitar as estratégias de cada um. Dou os parabéns ao FC Porto por isso, apesar de ser totalmente antagónico a essa forma de estar. O Benfica tem de trabalhar o jogo do FC Porto de uma forma específica porque os desaires com o FC Porto podem repercutir-se nos jogos seguintes e foi o que aconteceu com o Inter e em Chaves.
Quando defrontavas o FC Porto como jogador já era assim?
— Era muito mais. Era assim vezes 6, 8 ou 10. Desde as pessoas nos mostrarem as pistolas, desde bruxarias espalhadas pelos corredores, desde ácidos nos balneários, desde não nos permitirem fazer o aquecimento no estádio principal e obrigarem-nos a ir para o campo secundário, passando estrategicamente pelo meio de centenas de adeptos a cuspirem-nos. Desde foguetes e motorizadas sem escape a noite inteira à porta dos hotéis onde estávamos a dormir…. Tudo. Tudo o que pode imaginar foi feito.
— Isso acontecia cada vez que jogavas no Estádio das Antas?
— Sempre. Sempre. Por exemplo: num dia de 30 graus fomos ver o relvado quando chegámos e estava completamente seco, depois já não conseguimos lá fazer o aquecimento e quando entrámos para começar o jogo as faixas laterais estavam completamente alagadas. Valia tudo! Desde o simples funcionário a chamar-nos nomes, a cuspir-nos e a ofender-nos. Tudo, tudo o que posam imaginar.
— Viveste isso só na década de1980 quando eras jogador do Benfica ou também quando estiveste no Sporting?
— O FC Porto tem um inimigo de estimação que é o Benfica e com o Benfica é tudo muito mais. No Sporting também, não tanto, mas também. O FC Porto não pode permitir que o Sporting se coloque no meio do seu inimigo de estimação. Por questões estratégicas quando é preciso apertar o Sporting eles apertam sempre. Foi visível o ano passado. Foi visível este ano. A nós só nos restava tentar vencer independente dos aspetos exteriores. Convém dizer que o FC Porto nessas alturas também teve excelentes equipas com jogadores de altíssima qualidade. Ao longo dos anos as coisas começaram a ser mais expostas e, entretanto, desenvolveram novas técnicas. Hoje as coisas já são diferentes, com o mesmo objetivo, mas estratégias diferentes.
— Quais são agora?
— Vê-se. Bonecos pendurados nas pontes, ataques permanentes de toda ordem, ataques às casas do Benfica, ameaças a tudo e a todos, controlando as pessoas que estão ligadas ao futebol, ameaçando através das famílias e dos negócios. Acho incrível como é que até hoje, sendo o Benfica um clube tão poderoso na sua dimensão, e sendo a indústria do futebol uma coisa que tem uma economia tão forte, não se legisla tudo de forma a salvaguardar todos os clubes. É só fazer como vemos noutros países. Nada mais. Adorava que isso fosse feito aqui para que o nosso campeonato fosse de referência a nível europeu. Alguém tem que paquerar e pensar no futuro do nosso futebol e perguntar o que é que nos impede de ir mais além.
— Nesta fase da época, o Benfica tem quatro pontos de vantagem sobre o FC Porto. A pressão é maior?
— O Benfica não tem de pensar nos outros. Tem é de definir muito bem o seu objetivo que é ganhar em Portimão e no mínimo empatar em Alvalade. Tem de prepará-lo e executá-lo, olhar para dentro, pois toda a gente sabe que tem capacidade. O Benfica tem qualidade para isso. Depois tem o último jogo com o Santa Clara em casa e até podia ser com o Bayern. Nem há conversa.
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