Por José Albuquerque
Já depois de escrito meu último texto sobre o Fair
Play Financeiro, o GUACHOS fez eco (aqui) ao que o AS espanhol publicou a propósito do
Modelo de Gestão do Clube e, finalmente, fomos confrontados com um novo
paradigma que pode vir a determinar o futuro da gestão de todos os grandes
clubes de futebol, na sequência de um novo acórdão de um Tribunal Belga – o
“Acórdão Dahmane”.
Vale a pena recordarmos uma perspectiva histórica,
ainda que muito sinteticamente …
O futebol como desporto amador.
Desde o seu aparecimento até ao final da primeira
Grande Guerra, o futebol foi-se divulgando como um entre outros desportos
amadores e foi só no inicio dos anos 20 que surgiram os primeiros exemplos de
uma profissionalização que começou pelos técnicos e, depois, se generalizou aos
atletas e aos “gestores” das estruturas que suportavam as melhores equipas, num
processo iniciado em Inglaterra (copiando modelos dos desportos mais populares
nos EUA), que se estendeu aos principais países europeus e que,
verdadeiramente, só chegou a Portugal cerca de 30 anos depois (recordem-se que
os próprios “5 violinos” eram semiprofissionais).
O futebol como desporto profissional – a aurora
de uma “indústria”.
A generalização do profissionalismo no futebol (muito
acelerado pelos países do bloco soviético), concomitantemente com o boom económico
na Europa do pós segunda guerra e a
generalização da TV a cores, criaram as condições para o surgimento de uma nova
“indústria” na Europa (copiando os modelos já existentes nos EUA para o
baseball, o futebol americano, o basketball e o hóquei no gelo), que
contribuiu, determinantemente, para transformar o futebol no desporto mais
popular em todo o mundo.
Nessa fase, em Portugal, assistimos ao processo que
levaria o Nosso Clube a assumir uma hegemonia clara em todo o fenómeno
desportivo e a chegar ao areópago dos clubes mundiais, apesar da pequenez do
mercado interno e muito pela soberba fonte de talento atlético que constituíam
as províncias africanas.
O “Acórdão Bosman” e o fim da “escravidão” dos
atletas.
Enquanto no Portugal democrático e desestruturado se
começava a implantar um POLVO imundo e grosso que acabaria por garrotear a
Verdade Desportiva no futebol e em várias outras modalidades, a Europa assistia
a uma progressiva vulgarização de “grandes transferências” de futebolistas, com
a chegada dos mais talentosos sul-americanos e alguns exemplos de “imigração”
para os países em que a “indústria” do futebol era (como ainda é) capaz de
movimentar verbas mais vultuosas. Foi nessa altura que, internamente,
testemunhamos as primeiras “exportações” de futebolistas (como o Humberto, o
Chalana, ou o Futre, entre outros).
Ainda assim e até ao caso Bosman, as exportações de
futebolistas eram exemplos excepcionais, que só aconteciam com os atletas de
eleição, principalmente porque essas transferências só podiam acontecer com o
acordo integral do clube “vendedor”, não tendo os atletas qualquer forma de
“pressão”.
Foi no inicio dos anos 90, com o chamado “Acórdão
Bosman” que esta realidade se alterou dramaticamente, passando todos os clubes
fora do “clube dos ricos” a saber que nunca mais poderiam reter os seus
melhores futebolistas.
O “Modelo” do Benfica.
Embora saudando o trabalho jornalístico do AS sobre
o Glorioso, que constitui mais uma pedra na reconstrução do Nosso prestígio
mundial, quem, como eu, conhece este tema a fundo, não pode (e não posso)
deixar de o considerar apenas uma aproximação simplista (ou mesmo simplória) ao
Modelo de Gestão que foi idealizado, projectado e planeado a longo prazo pelo
conjunto de Sócios que se juntaram em torno do Manuel Vilarinho para colocar um
fim ao período mais negro da Nossa História (na altura ainda não) centenária.
Mas uma coisa eu vos posso garantir: esse modelo
sempre previu a exploração (no melhor sentido da palavra) de dois factores
fundamentais: em primeiro lugar, a Enorme dimensão do Benfiquismo, uma das
raras Místicas clubísticas com dimensão pluricontinental e, depois, a formação
e valorização dos Nossos Atletas, como fonte de proveitos avultados.
Nesses dias “de raiva”, sabíamos que teríamos de
começar por recuperar o Clube e a Nossa credibilidade (sem a qual nada seria
viável), tal como não duvidávamos que os Benfiquistas haveriam de apoiar o
Clube até ao limite das suas capacidades e que a valorização dos Atletas seria
uma fonte de rendimentos sem a qual a recuperação do Clube demoraria o dobro do
tempo. Não tem nenhuma importância, mas esta é a explicação para a prioridade
que alguns demos ao investimento no Seixal, mesmo antes da construção da nova
Catedral.
Portanto, o AS errou ao dar ao Nosso modelo de
gestão o nome do Presidente!
O Companheiro Luís Filipe Vieira tem inúmeros
méritos em todo este processo (incluindo neles a “subversão” do calendário
previsto, antecipando a nova Catedral), mas ele foi, apenas, um de muitos que
estudaram a situação do Clube no final do milénio e concluíram qual deveria ser
o caminho a percorrer: este que agora designam por “Modelo Benfica”.
Sobrevivem várias dezenas de testemunhas que podem
comprovar que até a uniformização da imagem das Casas (e a sua interligação via
intranet), a Benfica TV, o Benfica Stars Fundo e a exploração directa dos Nossos
direitos televisivos constavam nos planos de longo prazo que foram concebidos
naquela época.
As “novas” condicionantes do futuro.
Há uns dias escrevi algumas linhas sobre como
prevejo as consequências do FPF no futebol das próximas décadas e,
especialmente, sobre como entendo que ele deve ser enquadrado naquele que venho
designando como o Nosso novo paradigma de Gestão. Tenho que admitir que nenhum
processo do tipo FPF foi previsto pelas largas dezenas de Companheiros que
colaboraram com o MV e o LFV naquele que eu chamo o “ano da raiva”: naquela
época, o que admitíamos era que todas as instituições do futebol, quer as
nacionais, quer as supranacionais, iriam ser obrigadas a regular as trocas
comerciais entre os clubes, garantindo que os compromissos eram cumpridos.
Mas uma coisa eu posso garantir: o último documento
que lhes foi entregue (a dois dias da AG eleitoral), chamado “Agenda X – XX” (e
que era uma visão dos cenários prováveis para os anos de 2010 e 2020) estava um
capitulo … “Acórdão Bosman II”, escrito por um Companheiro especializado em
legislação laboral e com profunda experiência e contactos no movimento sindical
europeu.
Nesse capitulo, previa-se que em 2010 (ou até 2012)
já existiriam instrumentos legais que regulariam as indemnizações máximas que
os futebolistas teriam de pagar no caso de quererem rescindir os seus contratos,
como uma espécie de “degrau intermédio” entre a situação formulada no “Acórdão
Bosman” e uma situação final em que a contratação de atletas será regida
legalmente como qualquer outro contrato de trabalho. Ou seja, já na altura
ficou previsto que o que agora se chama “Modelo Benfica”, na sua fonte de
proveitos originada na valorização de Atletas, teria de vir a ser alterado num
horizonte de 10 a 20 anos.
Tardou (felizmente), mas ei-lo: um Tribunal belga
acaba de estabelecer que qualquer atleta pode rescindir, sem justa causa, o
contrato que o vincula ao seu clube, desde que pague uma indemnização no
montante do dobro dos seus salários vincendos até ao final da época (e não mais
até ao final do contrato), com o mínimo de 50% do seu salário anual (e um
máximo de 200%, logicamente)!
Eu não sou um especialista nestas matérias (longe
disso), mas recordo-me de já ter dado conta, num texto de há dias, da
“alteração” verificada nos regulamentos de transferências com aquela introdução
do “período de protecção dos contratos”, tal como alguns já tinham sido
surpreendidos com o limite máximo de 3 anos para a duração máxima dos contratos
com atletas com menos de 18 anos.
Não será para amanhã, mas já faltam poucos anos
(esse Nosso Companheiro falhou na previsão que fez para 2010/12, mas vai
acertar naquela que fez para 2020) para que, na Europa, os contratos de
trabalho com futebolistas sejam semelhantes, pelo seu enquadramento legal, a
todos os outros contratos de trabalho.
Claro que eu antecipo que a UEFA (e a FIFA,
posteriormente) vai produzir regras que garantam aos clubes “vendedores” um
(tão) largo (quanto possível) período de ambientação, bem como um reforço das
compensações aos clubes “formadores” (que, rapidamente, vão passar a ser função
do salário anual dos atletas, em substituição dos atuais 5% sobre o valor da
transacção), mas, mesmo assim, o que está em perspectiva é uma realidade
completamente nova, muito favorável aos clubes dos países com maior mercado
interno
Este cenário vai provocar uma revolução bem mais
profunda e rápida que o FPF, uma vez que, agora sim, ficam em causa os
“agentes” e os “fundos de investimento”, além dos “supernegócios” dos clubes
reconhecidos como os melhores “vendedores”, entre os quais encontramos o
Benfica.
Perante este novo cenário, aqueles Bancos que acabam
de “enterrar” mais 80ME no clube da osgalhada talvez tenham algumas explicações
adicionais a apresentar aos seus accionistas …
Conclusão.
Uma vez mais me vou regozijar pelo Enorme sucesso da
BTV e da Nossa “Fábrica”, os dois pilares fundamentais do novo paradigma de
gestão do Nosso Clube para os próximos 5 anos, tal como pela “sorte” que
tivemos por não termos sido confrontados com estas novas realidades há 5 anos
atrás.
Paralelamente e no caso de a UEFA querer que o
futebol europeu se mantenha com uma escala continental, urge a criação de um
verdadeiro Campeonato Europeu de clubes, “todos contra todos e em 2 voltas”, ou
talvez, mesmo, dois (com uma primeira e uma segunda divisões), sem o qual
nenhum clube fora dos 4 maiores países (ou 5, se incluirmos a Rússia)
conseguirá ser sustentadamente competitivo, talvez com a única excepção do …
Glorioso Sport Lisboa e Benfica.
Viva o Benfica!